BELA VISTA DE GOIÁS
Da construção artesanal ao ensino militarizado: a trajetória histórica do Colégio Pedro Vieira Januário
Agora, ao ser destinado para funcionar como escola militarizada, a unidade ganha um novo capítulo em sua trajetória, reforçando seu papel estratégico na educação local.
13/01/2026, 08:52 -

Erguido em meio a desafios, escassez de recursos e muito trabalho manual, o colégio atravessou gerações formando cidadãos e se consolidando como um dos principais patrimônios públicos do município.
Para resgatar essa história e revelar detalhes pouco conhecidos da construção do colégio, o Jornal 5 de Junho ouviu João de Assis Lopes, o “João Broca”, que participou diretamente da obra ainda na infância e acompanhou de perto cada etapa da edificação iniciada nos anos 1950.
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A construção do colégio teve início após a chegada do juiz de Direito Dr. José Rodrigues de Moraes a Bela Vista, vindo de Goiatuba. Experiente na condução de obras públicas, ele trouxe consigo projetos arquitetônicos e estimativas de custos, além de articular, junto ao então prefeito Sebastião Lobo, o acesso a recursos governamentais. Para a época, tratava-se de uma obra considerada grandiosa, tanto pelo porte quanto pelo impacto social que representaria.
O apoio da comunidade foi decisivo para que o projeto se concretizasse. O terreno onde o colégio foi erguido foi doado por Pedro Emídio, avô de João Broca, gesto que se tornou símbolo do envolvimento popular. Em um período marcado pela falta de máquinas, materiais e mão de obra especializada, moradores contribuíram como podiam, inclusive com trabalho braçal.
Dificuldades
As dificuldades enfrentadas durante a obra revelam a dimensão do esforço coletivo. Sem britadeiras, as pedras do alicerce eram dinamitadas e quebradas manualmente, a marreta. Os tijolos eram fabricados no próprio canteiro, com barro transportado em caminhões e carregado à mão. A madeira vinha do mato e era serrada artesanalmente. Tudo exigia resistência física, organização e união.
Cerca de 20 trabalhadores participaram diretamente da construção, entre serventes, pedreiros, carpinteiros, armadores e um mestre de obras. O responsável técnico foi Geraldo de Assis Lopes, conhecido como Geraldo “Pedreiro”, construtor experiente que deixou sua marca não apenas no colégio, mas também em outras obras importantes da cidade, como a prefeitura, pontes e residências.
João Broca começou a trabalhar na obra aos 12 anos de idade, ao lado do irmão Ubaldo, o Baldino. Inicialmente, quebrava brita no quintal da casa do avô, sendo remunerado por produção. Também ajudava na fabricação de tijolos, chegando a colaborar na produção diária de até dois mil blocos. Com o tempo, passou a auxiliar em tarefas administrativas e participou de etapas mais complexas, como a cobertura do telhado, que possuía cerca de 60 metros de extensão.
A morte de Getúlio Vargas
Um episódio marcante ficou gravado em sua memória: durante os trabalhos no telhado, em 24 de agosto de 1954, os operários receberam a notícia da morte do então presidente Getúlio Vargas, um momento histórico que se misturou à rotina intensa da construção.

- (João de Assis Lopes, o “João Broca”, que participou diretamente da obra ainda na infância)
Na fase final da obra, João e o irmão ficaram responsáveis pela pintura interna. As tintas eram preparadas manualmente, com alvaiade, óleo de linhaça, óxido de ferro e pigmentos. A mistura inusitada de cores gerou estranhamento inicial por parte da administração, mas acabou sendo elogiada pelo juiz responsável, que considerou a tonalidade moderna para a época.
A construção durou dois anos, entre 1953 e 1955, e resultou em um prédio que simboliza até hoje coragem, perseverança e compromisso com a educação. Para João Broca, o Colégio Pedro Vieira Januário representa um legado que precisa ser conhecido e valorizado pelas novas gerações.
Com a transformação da unidade em escola militarizada, Bela Vista de Goiás une passado e futuro em um mesmo espaço. O colégio que nasceu do esforço coletivo e do trabalho manual passa agora a integrar um novo modelo educacional, mantendo viva sua história enquanto se prepara para atender às demandas contemporâneas da formação cidadã.







